Jornal Avante - 14 Setembro 2017

Entrevista de Anabela Fino

De Lisboa para Havana com saudades no coração

Johana Ruth Tablada de la Torre, embaixadora de Cuba em Portugal nos últimos quatro anos, parte para Havana apaixonada pelo país da revolução dos cravos onde se sentiu em casa. Cuba para sua sucessora deixa uma recomendação: voos directos Lisboa/Havana para aproximar ainda mais os que já são tão próximos.

Durante a sua missão em Portugal teve oportunidade de participar em inúmeras iniciativas, de percorrer o País. Que balanço faz na hora da despedida?

Na hora da despedida sinto uma mistura de sentimentos porque Portugal me deu muito. Deu-me a oportunidade de trabalhar e de representar o meu país, o que não foi uma tarefa difícil, porque Cuba é um país querido e respeitado em Portugal. Encontrei aqui uma população muito mais conhecedora do que eu esperava da realidade cubana e do seu projecto. Cuba é querida em Portugal pela sua revolução, o que para mim foi uma revelação. Mas o que mais me marcou foram os valores que Portugal tem, fruto da sua rica história, naturalmente, mas também da revolução dos cravos, do 25 de Abril, o que é muito interessante. Um país que tem mil anos de história é hoje, mesmo com o apego às suas tradições, um país com valores muito modernos, muito contemporâneos e de muita justiça social.

Marcou-me também, naturalmente, a gastronomia, de que vou ter imensas saudades, o carinho do povo, os seus compromissos sociais, o internacionalismo... E como estou a falar com o Avante! não posso deixar de referir o Partido Comunista Português e a sua amizade histórica com a revolução cubana, o que marcou profundamente a nossa missão aqui pela imensa quantidade de iniciativas associadas à solidariedade com Cuba, com a América Latina, com os países mais progressistas da nossa região, como a Venezuela, pela integração, a luta contra as armas nucleares, contra o imperialismo, contra a guerra e pela paz... Podíamos continuar a falar e continuaríamos a falar de uma línguagem comum. Isso marcou-me profundamente.

A presença de médicos cubanos em Portugal foi alvo, em 2014, de uma execrável campanha mediática contra Cuba. Como explica isso?

Isso foi uma crise artificial. Visitei todas as áreas de saúde, todas as autoridades de saúde, todos os sítios onde estavam esses médicos, e o que percebi foi: primeiro, um elevado nível de satisfação da população portuguesa pelo atendimento recebido dos médicos cubanos; segundo, uma excelente relação entre os médicos portugueses e cubanos; e terceiro, uma excelente comunicação entre as autoridades de saúde locais, municipais e nacionais de Portugal e os representantes dos médicos cubanos.

Qual foi a acusação? Que os médicos de Cuba estavam a tirar vagas aos médicos portugueses. Não é verdade. Nas aldeias de onde foram retirados médicos cubanos e ficaram vagas, estas ainda estão por ocupar. A verdade é que os nossos médicos foram para locais onde não havia médicos portugueses a concorrer, fora das grandes cidades, dos hospitais de primeira geração... Essa campanha foi rapidamente desarticulada. Também acusaram Cuba de «escravatura», que os nossos médicos não ganhavam dinheiro e que o seu pagamento ia todo para o «governo cubano». A verdade é que, tal como acontece com outros contratos de empresas privados, o acordo entre Portugal e Cuba é que uma parte do ordenado que Portugal paga aos médicos cubanos vai para os serviços médicos cubanos, que foi a empresa que os contratou para virem para Portugal. Esse dinheiro não vai para o bolso de ninguém; vai para o Serviço Nacional de Saúde de Cuba, que é gratuito.

Termina a sua missão com a assinatura de um importante acordo entre Portugal, Cuba e a Guiné-Bissau para implementar um projecto para reduzir a mortalidade materno-infantil neste país africano. Como foi isso?

Este projecto, como todos os que envolvem muitas pessoas, reúne a boa-vontade de muitas partes. Desde logo de Portugal, porque os PALOP são uma prioridade da sua política externa. De Cuba, porque somos descendentes de África, os nossos ancestrais são oriundos justamente do Golfo da Guiné, e porque África foi sede de um episódio de internacionalismo que prossegue até hoje na ajuda ao desenvolvimento, que foi além da guerra contra o apartheid, seja na construção de escolas, bolsas para estudantes, infra-estruturas de saúde, formação de professores, etc., etc. Devo dizer que descobri, ao chegar aqui, que Portugal tem uma relação especial com as suas ex-colónias. Nem sempre é assim...

Isso que faz com que Portugal e Cuba – cujas boas relações se devem muito à acção de esclarecimento do PCP sobre a realidade cubana, à Associação de Amizade Portugal-Cuba e, não me canso de repetir, à revolução de 25 de Abril, aos seus valores –, sejam parceiros naturais para colaborarem no relacionamento com África, desde naturalmente que haja um pedido nesse sentido. Foi o que sucedeu com a Guiné-Bissau, que é actualmente o país do mundo com a maior taxa de mortalidade materno-infantil. Este acordo vai permitir diminuir essa taxa de forma radical.

 O projecto assinado hoje [8 de Setembro] é gerido pelo Instituto Marquês de Valle Flôr, e quase todo pessoal envolvido é guineense, cerca de 40 profissionais. Cuba contribui com seis médicos e mais três especialistas, que vão começar a trabalhar de imediato. Os resultados vão ver-se num curto prazo, estou certa, tendo em conta os excelentes resultados obtidos no projecto piloto levado a cabo pelo Instituto numa pequena área. Daí que se tenha avançado para esta parceria, que vai envolver todo o território da Guiné-Bissau, e que Portugal vai apoiar financeiramente, juntamente com outras organizações internacionais.
 

Já há data para começar?

Em Outubro toda a gente começa a trabalhar. Os médicos já foram escolhidos, já aprenderam a língua, já têm passaporte... Estão prontos para começar.
 
A Câmara de Comércio Portugal Cuba fez três anos. É um caso de sucesso?
 
A Câmara surgiu em 2014 com 12 empresas, hoje já tem 92 e tem conseguido que as empresas portuguesas tenham maior visibilidade no mercado cubano. Por exemplo, o ano passado, pela primeira vez, Portugal esteve na Feira Internacional de Havana com um pavilhão próprio e atingiu o quarto lugar entre mais de 75 países pela qualidade dos produtos expostos; várias empresas participantes efectuaram negócios para exportações. As exportações de Portugal para Cuba cresceram 41% entre 2015 e 2016. Para a parte cubana também há resultados importantes: na nova área de investimentos de Mariel há uma empresa construtora portuguesa, há processos em desenvolvimento na área do papel, da celulose...
 
Regista-se igualmente um crescente interesse de empresas cubanas por produtos portugueses cuja qualidade era desconhecida. Nos próximos dias, justamente, vai chegar a Portugal uma representação da maior empresa importadora de produtos químicos de Cuba. No ano passado esteve cá uma empresa de moldes, um sector onde Portugal tem reconhecida qualidade e em que Cuba precisa de se renovar... Os dois países têm muito a desenvolver e a ganhar nas suas relações.
 
O bloqueio dos EUA a Cuba, que ameça agravar-se com a administração Trump, pode afectar esse relacionamento?
 
Espero que não. Porquê? Porque por muito mau que o bloqueio seja para nós, para as empresas portuguesas representa uma oportunidade para entrar no mercado cubano sem terem de enfrentar a concorrência mais agressiva das empresas estado-unidenses.
 

Que expectativas é que tem com a administração Trump?

É um processo que tem muitas incertezas, mas há sem dúvida um retrocesso na retórica, na política, na ingerência e na visão de para onde queremos avançar. Dito isso, devo dizer que felizmente há muitas instituições nos EUA que não partilham a visão de Trump e que acreditam que Cuba e os EUA têm muito a ganhar num relacionamento melhor. Temos 24 acordos que ainda estão a funcionar e não será fácil voltar atrás. Seja como for, Cuba vai voltar a levar às Nações Unidas a sua resolução a denunciar o bloqueio e as promessas de o endurecer.
 

No dia 15 de Setembro está previsto o anúncio das novas regulações que darão corpo à retórica de guerra fria, da época das cavernas, enunciada em Miami em Junho passado para anunciar o fim da melhoria das relações. Temos de estar muito atentos, muito firmes, porque Cuba já sofreu tanto e não tem disposição nenhuma para voltar para trás e muito menos para fazer concessões de princípio. Nem com a nossa situação interna nem com o nosso internacionalismo.

O que quero dizer é que temos o sistema que os cubanos querem ter e vamos continuar a fazer as mudanças que o povo de Cuba precisa de fazer para aperfeiçoar o nosso modelo económico, político e social. Queremos continuar a ser um país socialista, com justiça social, onde a propriedade mais importante seja a propriedade social, onde os recursos mais importantes estejam nas mão do povo, onde mesmo havendo espaço para investimento estrangeiro, para empreendedorismo, para formas não estatais de produção e negócio, seja o povo o dono dos seus principais recursos porque é daí que saem os serviços que fazem de Cuba um país muito querido e muito admirado, onde toda a população tem direito à educação, à saúde, a viver com dignidade, onde ninguém fica desamparada. Disso não abrimos mão.