CENTENÁRIO DE NASCIMENTO DE ALEXANDRE CABRAL
Casa do Alentejo, 22 de Novembro de 2017 – 18,30 h
Intervenção de Aguinaldo Cabral (filho de Alexandre Cabral)

Gostaria, para iniciar esta minha intervenção, de vos transmitir alguns breves dados biográficos sobre Alexandre Cabral. Como se sabe, Alexandre Cabral é o pseudónimo literário do cidadão José dos Santos Cabral, meu pai, que nasceu em Lisboa e viveu os primeiros anos de vida na Ajuda, num bairro de gente humilde, convivendo com a miudagem pobre do bairro.

Depois da Escola Primária frequentou o Instituto dos Pupilos do Exército onde imperava um regime rigoroso, tipo “caserna”, mas em que ocorriam, por vezes, na Companhia dos Alunos, actos de camaradagem e de solidariedade, que foram determinantes na formação da personalidade de meu pai. Desta experiência inesquecível resultou o romance “Malta Brava”, de 1955, com ilustrações de Júlio Pomar.

Interrompeu os estudos voluntariamente aos 15 anos, tendo tido depois sucessivos empregos em várias áreas. Este contacto precoce com a realidade laboral e social do Portugal salazarista, que incluiu a convivência com operários da Carris, foi muito importantes para a sua crescente consciencialização política, ao mesmo tempo que aprofundava o interesse pela Literatura e a Cultura em geral. Entre 1936 e os anos 40 desenvolveu uma intensa actividade de divulgação cultural, fundando, dirigindo, colaborando numa série de jornais, revistas e instituições culturais. Por exemplo foi director de “A Voz da Mocidade” com apenas 19 anos de idade. Iniciou-se muito cedo na escrita, assinando as primeiras publicações com o pseudónimo de José Larbak, pseudónimo que abandonou em 1940, num artigo na “Democracia do Sul” que assina com o pseudónimo Alexandre Cabral, nome que ficou para toda a vida.

A partir dos anos 40, e do convívio com outros escritores e artistas democratas, foi-se aproximando do movimento neorrealista, sendo considerado, nas palavras do Prof. António Pedro Pita, director do Museu do Neorrealismo um nome importante da vertente literária desse movimento. “O Sol Nascerá Um Dia”, de 1942, magnífico livro de contos, passados em meio urbano, é o marco decisivo dessa integração.

Em 1943, emigrou com o poeta e amigo Sidónio Muralha para o Congo Belga (Leopoldeville), aí se juntando mais tarde as duas famílias, e eu que tinha 4 anos fui viver para África. Aí Alexandre Cabral desenvolveu intensa actividade cultural junto da comunidade portuguesa, foi director da Amical Portuguesa, mas também uma acção política significativa contra o colonialismo e o fascismo. Esta marcante experiência africana deu origem a vários romances e contos, escritos mais tarde, entre 1947 e 1963.

Em 1946 regressou a Portugal e retomou os estudos, frequentou o Curso de Ciências Histórico-Filosóficas da Fac. Letras de Lisboa e iniciou, então, um longo período de febril actividade literária, cívica, associativa e política.

A obra literária de Alexandre Cabral é muito vasta e diversificada: romances, contos, novelas, ensaios, antologias, crónicas, prefácios, biografias, traduções, 1 peça de teatro e imensa colaboração escrita em jornais e revistas nacionais e estrangeiras. Algumas das suas obras foram apreendidas pela PIDE.

No início dos anos 60, aceita o desafio de Augusto da Costa Dias, que lhe propõe a organização de um volume antológico da novela camiliana. Foi o “início de uma aventura” (palavras suas), e que aventura: foram anos e anos de trabalho absorvente, quase obsessivo, que lhe debilitou a saúde, mas com uma solidez de investigação e um rigor informativo assaz incomuns. Este labor imenso levou à publicação de mais de 160 títulos e culmina na elaboração do “Dicionário de Camilo Castelo Branco” (1ª ed. 1989), trabalho que realizou ao longo de anos, praticamente sozinho e sem subsídios de qualquer espécie. O Prof Aníbal Pinto de Castro
caracterizou esta obra como “monumental”, e atribuiu ao autor o título de “Mestre incontestado dos Estudos Camilianos”.

Alexandre Cabral aderiu, muito jovem, ao Partido Comunista Português, o seu partido de sempre, mantendo com firmeza as suas convicções políticas até morrer. Participou activamente nas lutas e campanhas antifascistas, foi um lutador dedicado pela Liberdade, a Democracia, a Paz, a Justiça e o Progresso Social, antes e depois do 25 de Abril de 1974.

Resumidamente posso acrescentar que foi um elemento preponderante na criação da Sociedade Portuguesa de Escritores e fez parte da primeira direcção presidida por Aquilino Ribeiro, Sociedade que foi encerrada coercivamente em 1965. Integrou os Corpos Gerentes da Associação Portuguesa de Escritores, que lhe sucedeu, mas também da Seara Nova, da Liga para o Intercâmbio com os Países Socialistas, etc. Foi apoiante activo das Candidaturas de Arlindo Vicente e depois de Humberto Delgado, à Presidência da República em 1958. Pertenceu às Comissões de Escritores de apoio à CDE (1969, 1973). Integrou a Comissão Nacional
Promotora do II Congresso Republicano de Aveiro (1969), etc, etc…

Com este percurso de vida de lutador e resistente foi Alexandre Cabral preso pela PIDE em 1952, 1963, 1964. Ora, a sua prisão em 1964 foi devida, precisamente, a uma visita prolongada, clandestina, a Cuba, a convite do Governo de Fidel Castro (El Caballito), como o povo cubano carinhosamente o tratava. Nesta visita, cinco anos após a vitória da Revolução (1 Jan 1959), meu pai recolheu imensas notas, depoimentos, relatos de tudo que viu e visitou, dos debates, entrevistas, das
personalidades importantes da área cultural e política que contactou, acalentando o projecto de vir a publicar tudo isso em livro, em Portugal.

E é a história desse livro, que viria a ser “Um Português em Cuba” que gostaria de vos contar em traços breves, porquanto é muito significativa no que respeita à repressão da Censura e da PIDE sobre, neste caso, os escritores e artistas democratas. Estamos em 1964, em pleno salazarismo não esquecer; meu pai regressou de Cuba (já contaremos mais adiante este episódio) e foi preso pouco tempo depois em Lisboa. A nossa casa foi revistada mas, felizmente, não encontraram os relatos da visita a Cuba. Quando foi liberto Alexandre Cabral voltou à ideia inicial da publicação dos seus textos. Mas como publicar este livro no Portugal de 1964? Que editor tomaria a responsabilidade de semelhante encargo?

Só mais tarde, em 1969, na muito relativa “abertura” caetanista, devido às eleições para deputados, Alexandre Cabral tentou a publicação. Chegou a propor ao Diário Popular que publicasse os textos em números sucessivos do vespertino, projecto que até foi aceite, mas a Censura cortou logo o primeiro artigo, cortou o segundo e, aparentemente, estavam perdidas todas as esperanças! Ora, nessas eleições para deputados (1969), meu pai era Candidato pela Oposição Democrática por Santarém. A fraude eleitoral e as “chapeladas” frequentes verificadas por todo o país, foram denunciadas duramente pelo Movimento Democrático, e foi neste contexto, de relativa abertura por um lado, e de luta e denúncias por outro, que o livro “Um Português em Cuba” foi finalmente publicado (1ª ed Out. 1969; 2ª ed Dez. 1969). Foi um êxito, mas a Censura e a PIDE apreenderam toda a obra em 1970. Esta edição que aqui tenho (a 3ª) foi publicada em Set de 1974, portanto já depois do 25 de Abril!

Alexandre Cabral afirmava com razão, e são palavras suas: “Escrever equivale a lutar; é uma forma positiva de resistência ao fascismo e serve, sem sombra de dúvida, de estímulo às lutas populares, contribuindo para a consciencialização cívica e política de cada vez mais vastas camadas da população” (fim de citação).

“Um Português em Cuba” relata muito da história de um povo que se libertou pela sua coragem e determinação. Cuba era nas vésperas da Revolução (1959) um país com 500.000 desempregados, 100.000 tuberculosos, à volta de 2 milhões de analfabetos, centenas de bordéis e bares superlotados, milhares de mulheres sujeitas à prostituição, um país com praias privativas, com predomínio da monocultura, e com o jogo e as drogas às escâncaras. A realidade relatada neste livro é bem diferente do panorama atrás referido, particularmente em certas áreas como: a Educação, a Saúde, a Cultura, a Industrialização, a Economia, os Apoios
Sociais.

Mas voltemos a 1964: Alexandre Cabral dizia que o facto de ter o passaporte no seu nome civil, que não correspondia ao nome literário, lhe permitia uma certa imunidade, particularmente nas viagens para países socialistas. Mas neste seu regresso de Cuba, as coisas não correram como esperava. O seu destino de regresso passava por Paris, mas aí, no Aeroporto de Orly, foi barrado pela Polícia Francesa que lhe levou o passaporte. Algumas horas depois, e de muita agitação dos policiais, apareceu um civil (um pide francês pensou meu pai) que lhe devolveu o passaporte e lhe disse secamente:” Desculpe este contratempo! O senhor
não é efectivamente a pessoa que nos interessa”.

E foi Maria Lamas, com quem meu pai jantou nessa noite, que lhe deu a explicação: estava prevista a chegada de Humberto Delgado a Paris, e a ealização de uma Conferência de Imprensa no próprio Aeroporto. Ora, na xpectativa de possíveis problemas, a Polícia Francesa armara um oderoso dispositivo de vigilância e meu pai foi apanhado nas suas alhas. Bem, lá seguiu viagem e chegou a Lisboa aparentemente sem ntraves, só que 15 dias depois foi despedido da empresa onde
trabalhava e, pouco mais tarde, foi preso em casa como já referi anteriormente.

Ainda sobre Cuba publicou Alexandre Cabral um livro importante “José Marti e a Revolução Cubana”, em 1976, livro que dedicou a ADRIANA CORCHO e a EFREN MONTEAGUDO, os cidadãos cubanos que foram vítimas do atentado terrorista contra a Embaixada de Cuba, em Lisboa, nos anos 70. José Marti, nascido em 1853, foi um eminente pensador e homem de acção, uma figura muito muito respeitada pelo povo cubano que lhe chamava “El Apóstol” (O Apostolo). Fidel Castro atribuiu-lhe mesmo a paternidade da Revolução Cubana. Marti faleceu aos 42 anos na Batalha de Dois Rios ,em 1895, mas ficou sempre como o elo de ligação entre o passado, pleno de lutas contra os colonialistas espanhóis, e mais tarde contra a grande burguesia cubana, e o futuro, onde se pojectava a ideia da independência nacional e a melhoria das condições sociais para todo o povo trabalhador.

Alexandre Cabral foi, pois, um amigo de Cuba, esteve várias vezes nesse país; assinou convénios em 1975 e 1982 entre a Associação de Amizade Portugal-Cuba, entretanto criada (Nov. 1974), e o Instituto Cubano de Amistad con los Pueblos. Foi um elemento importante na criação da Associação de Amizade Portugal-Cuba, tendo sido o primeiro presidente da respectiva Direcção. Fez parte do Júri do Prémio Casa de las Americas em Havana (1980), tendo no mesmo ano participado em vários colóquios e conferências sobre Camões, por altura do IV Centenário da Morte do poeta, no Brasil, União Soviética e Cuba.

Enfim, foi Alexandre Cabral um homem digno, afável, humano, corajoso, um intelectual despretensioso, sempre disponível e presente, um cidadão que viveu intensamente toda uma época marcada pela Censura, a Repressão, a Prisão, e até o Assassínio dos oposicionistas. Afirmava Urbano Tavares Rodrigues, em 1996 (um mês antes de meu pai falecer), e são palavras suas:” Alexandre Cabral, investigador, historiador da Literatura, ficcionista, combatente da Liberdade, militante comunista na sombra e à luz do sol, tem vivido e escrito sempre de espinha direita, com amor aos outros, com paixão pela escrita, equilibrando no seu percurso o
gosto pela vida e a confiança no sonho”.

É este o homem que estamos hoje a homenagear!

E afirmo eu, agora para terminar, que tenho orgulho de ser filho do cidadão José dos Santos Cabral.

Muito obrigado.

(*) Aguinaldo Cabral (médico pediatra)

- Casa do Alentejo, 22 Nov. 2017 -