Venezuela acossada pelo imperialismo

A situação na Venezuela está num nível de grande degradação.

É o resultado de um processo iniciado depois da eleição de Hugo Chávez (1998). Porquê? Porque, apesar do grande apoio popular, não agradou ao imperialismo e ao grande capital, tão só por defender e seguir uma política a favor do povo.

No chamado “mundo livre” - seguramente, livre de fontes de informação diversificadas - há um regozijo pela actual situação na Venezuela; associam-na a um fracasso do socialismo e das políticas a favor dos povos.

 

Surge uma dúvida:

a) essa “alegria” advém da capacidade de recuperação e manutenção do capitalismo?

b) essa “alegria” advém da capacidade dos EUA de esmagamento dos povos que lutam pela sua independência e autonomia?

Na 1ª hipótese, será uma “alegria” legítima, para quem acreditar e defender o capitalismo.

Na 2ª hipótese, para além de juízos ético-políticos, parece ser legítimo dizer que se “alegram” com a violação frontal e perigosa do Direito Internacional Público (DIP) e da Carta das Nações Unidas (CNU).

Levarão em conta que EUA e aliados actuam tal e qual terroristas e criminosos, mas com mais poder?

No mundo, na América Latina e, concretamente, na Venezuela, EUA e aliados utilizam meios e métodos duplos: violência patente e violência encoberta. Uma e outra visam o derrube de governos eleitos pelo povo.

Quanto à Venezuela:

a) A violência patente traduz-se em invasões militares, directamente ou através de apoio militar e económico a forças de direita, que perderam eleições, e a mercenários:

a.1. em 2002, fomentaram e participaram num golpe de Estado contra Hugo Chávez, conseguindo instaurar uma ditadura de 3 dias.

a.2. em Fevereiro de 2014, promoveram e apoiaram desordens e desacatos (“las guarimbas”), com a morte de 42 pessoas, quase meio milhar de feridos e danos materiais em várias instituições estatais.

a.3. em Fevereiro de 2015, mais um atentado golpista, visando gerar uma guerra social;

a.4. em 2015, Obama renovou por mais um ano a ordem executiva declarando a Venezuela como uma "ameaça extraordinária e inabitual para a segurança nacional e política exterior estado-unidenses". De tão ridícula, levou à unanimidade, na América Latina e em todo o mundo, de que não era senão uma “manobra” para criar condições para uma futura agressão militar contra a Venezuela, sobretudo se o “desgaste lento” demorasse ou não surtisse efeito.

a.6. neste ano, o secretário-geral da OEA (Organização dos Estados Americanos) ensaiou uma manobra para isolar a Venezuela, com a tentativa de activar a Carta Democrática Inter-americana imposta pelos EUA em 2001 -, contra Venezuela; não resultou devido ao apoio da maioria dos países da América Latina.

b) A violência encoberta utiliza a comunicação social, o boicote e a sabotagem:

b.1. a comunicação social mundial e, especificamente, venezuelana - na mão do grande capital -, contribuiu para uma imagem irreal da Venezuela.

b.2. desde 2002, os principais produtores de crude sofreram sabotagens da parte dos EUA e aliados:

- a greve petrolífera de 2002-2003, ou seja, logo a seguir ao golpe de Estado de 2002.

- a invasão do Iraque, em 2003;

- sabotagens na Nigéria;

- o ataque e desmantelamento da Líbia;

- a produção pelos EUA através do “fracking”, método com riscos graves para a saúde, para a contaminação de aquíferos e para a sismicidade do planeta. Mas, interessou aos EUA aumentar a sua produção de hidrocarbonetos, ao mesmo tempo que fazia descer o preço no mercado internacional.

Foi calculado que este sistema de sabotagem produzisse os seus piores efeitos em 2015 e 2016.

b.3. a limitação de acesso a fontes de financiamento e outras estratégias “escondidas” de bloqueio comercial, como por exemplo a manipulação do indicador de risco do país, fornecido pela “troika” Standard & Poor`s, Moody´s e Fitch, ou a negociação de créditos com taxas de juro impossíveis de cumprir.

A classificação de risco da Venezuela foi de tal maneira agressiva que a Venezuela ficou em pior situação do que a Síria (em guerra) e a Grécia (quando foi declarada em “default”), não obstante essas classificações não corresponderem à situação real do país, que nunca caiu na situação de não pagamento.

Diga-se que, aquando da referida ditadura de 3 dias, em 2002, a classificação de risco do país baixou de 1400 para 700 pontos.

O rol é imenso, levaria dias. Mas, é inquestionável o cerco e a agressão permanentes contra o País de Simão Bolívar, conducentes à sua desestabilização económica e política e ao regresso da direita neoliberal, que tanto sofrimento tem infligido aos povos da América Latina.

Apesar desta violência imperialista quer a Venezuela, quer os países vizinhos, quer as organizações políticas e económicas da América Latina, solidárias com a Venezuela, sempre procuraram o diálogo para ultrapassar as situações que lhe eram impostas do exterior.

O imperialismo há-de ser derrotado e é esse medo que o torna criminoso e desumano.

Os povos da América Latina sabem que cumprirão o projecto de Simão Bolívar e de José Martí. Por isso lutam com determinação e confiança.

 

Artigo de Rui Barreiros

do Núcleo da AAPC de Coimbra